terça-feira, 6 de agosto de 2013

A menina que foi trocada por meia dúzia de ovos

A menina que foi trocada por meia dúzia de ovos


Foi acordada pela mãe às 3 horas da manhã com a indelicadeza habitual.

- Anda logo que temos que chegar cedo.

O rosto sardento mal teve tempo de se olhar no espelho, à luz de uma vela, para arrumar o cabelo cor de cobre. Colocou o vestido, feito com o que havia sido o forro de um velho colchão, e correu para acompanhar a mãe, que já esperava impacientemente na porta.

O caminho até a feira foi percorrido em silêncio. Ela carregou, sem reclamar, um caixote pesado mais ou menos da sua própria altura. A mãe não levava nada nas mãos. Quando chegaram ao local, escolheram um pequeno espaço próximo à entrada. Ela subiu no caixote, onde ficava mais visível para todos que passavam. Enquanto a mãe negociava com possíveis clientes, respondendo a suas perguntas, ela observava os outros feirantes.

Um homem de turbante vendia sofás que não paravam quietos. Ficavam sempre correndo em círculos ao redor dele em passinhos tão apressados quanto suas pernas curtas permitiam, mas nunca se distanciavam muito.

-... sim, ela sabe limpar a casa, lavar roupas e cozinhar...

Outro senhor, vestindo uma toga, estava tendo problemas para controlar sua mercadoria: pequenas árvores de um metro e meio de altura com copa em forma de guarda-chuva que insistiam em soltar um jato de ar pela base, fazendo um som parecido com um estouro e subindo cerca de dez metros no ar, caindo suavemente a vários metros de distância. Vez ou outra uma delas se empolgava e o estouro fazia com que voasse por dezenas de metros e fosse cair no mar, do outro lado da feira.

-... e que diabos você quer fazer com uma malabarista? Não, ela não sabe nenhum desses truques idiotas!

Vinha chegando à feira uma mulher que trazia presas a coleiras várias mochilas. Algumas latiam animadas, outras paravam para cheirar um ou outro poste. Um garoto tentou acariciar uma menos amigável e acabou ficando com a marca arredondada do zíper no braço quando ela o atacou.

-... não, por esse preço é impossível! Ela vale mais que isso!

Um grupo de engravatados barganhava com lagartos, tentando conseguir um desconto na compra de grilos fritos. Uma velha senhora terminava de montar sua barraca e agora colocava à mostra metades de frutas carnosas por fora e espinhentas por dentro. Um ferreiro exibia uma coleção de dedais primorosamente trabalhados.

Olhou de volta para a mãe. Ela parecia ter fechado negócio com um senhor magro, de cabelos muito brancos e vestindo apenas uma saia de palha e um colar de dentes.

-... então está fechado. Meia dúzia de ovos e ela é toda sua! Mas o caixote não está incluso.

O senhor pagou o preço e ela foi com ele. Enquanto se afastavam, virou o rosto pra trás e olhou a mãe com tristeza. A mãe olhou de volta, mas não deixava transparecer nenhuma emoção no rosto.



Encontraram-se numa praça não muito longe da feira, poucas horas depois.

- Teve problemas pra se livrar desse?

- Não. Foi só sair correndo, ele não tinha forças pra vir atrás de mim.

- Ótimo. Beba isso.

Ela pegou o cantil que a mãe lhe estendia e bebeu. A pele escureceu. O cabelo ficou preto e encurtou. Logo agora que ela estava se acostumando com eles ruivos...! Mas sabia que também se acostumaria com o cabelo crespo e passaria a gostar deles. Pelo menos até a próxima feira, dali a um mês. Depois ela provavelmente ficaria loira, ou quem sabe com feições orientais. Não importava. Ela ganharia uma aparência nova e sua mãe conseguiria outra meia dúzia de ovos. Pegou o caixote do chão e se apressou para acompanhá-la.


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Sobre este conto


Este conto foi escrito em pouco menos de uma hora em março de 20013 e foi o primeiro texto literário que escrevi desde saí do ensino médio. Sempre tive várias ideias de personagens e situações, mas nunca tinha feito o exercício de colocar tudo no papel por achar que histórias deviam ser compridas e complicadas. Depois de muito ler os contos de Neil Gaiman e perceber que isso era besteira, resolvi enfrentar meu medo de escrever só por prazer e dar a cara a tapa mostrando o conto para meus amigos, que gostaram bastante e pediram por mais.

A inspiração veio de uma amiga que me contou um sonho de quando ela era criança: sua mãe a acordava de madrugada e a levava para uma feira livre, em que ela era trocada por meia dúzia de ovos. Achei o conceito bem engraçado, embora devesse ser bem assustador para ela na época. Meu objetivo inicial era fazer um conto de humor, mas acabou saindo algo bem mais sombrio e toda vez que o releio percebo que a personagem principal tem uma vida bem mais miserável e infeliz do que eu pretendia enquanto escrevia. É interessante como colocamos mais possibilidades de interpretação do que queremos nos textos e só depois nos damos conta disso. Aliás, eu acredito que uma estória não é apenas o que o autor escreve, mas também a interpretação que o leitor faz, então não me peçam pra explicar pequenos detalhes dos meus contos: me explique você o que você achou deles.

Já que a ideia de uma criança ser trocada por algo tão simplório quanto ovos parece um absurdo, resolvi explorar isso e fazer um conto de fantasia. Assim dava pra colocar várias outras imagens absurdas que eu tinha em mente: as árvores "a jato" são fruto de um sonho meu, por exemplo. O gênero de fantasia é ótimo para subverter as regras do mundo real, e ainda me dá a liberdade de não precisar explicar explicitamente as regras do universo que criei: mais uma liberdade para o leitor interpretar como quiser! 

Como ninguém cria nada do zero, tive influências e usei elementos de outros autores que já li. Por exemplo: quem conhece "Lugar nenhum", do Neil Gaiman, deve ter reconhecido bastante da Feira dos Trolls, o que foi uma referência feita meio que "sem querer querendo".

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